porque ela vai estar lá / querendo proteção
"Pra quem você tem olhos azuis
E com as manhãs remoça
E à noite, pra quem
Você é uma luz
Debaixo da porta?
No sonho de quem
Você vai e vem
Com os cabelos
Que você solta?
Que horas, me diga que horas, me diga
Que horas você volta?"
Chico Buarque
Em silêncio, ficou a contemplar o mar, as ondas se quebrando sem cessar. E me perguntou: "O que é que o mar faz quando vai dormir?". Era-lhe incompreensível a eternidade do mar. Também me espanto e me pergunto, sem resposta: "Há quanto tempo o mar se quebra alisando a areia?". O mar, a praia, as conchas, o céu, os peixes invisíveis nas profundezas, as gaivotas em vôo me falam da eternidade. Senti-me retornado ao início do mundo (...)"
Rubem Alves - da crônica "Por que não me mudo para Bahia".
aberto!
Então ouço esse tal de relacionamento aberto. Vejo a trajetória previsível desses personagens tão caretas em sua pós-modernidade frenética. Aparentam uma certa felicidade - logo corrijo-me, vejo que esse sorriso carrega um desejo de estar feliz, uma vontade de convencer o lado de fora primeiro, na ilusão do lado interno acabar felicitando-se por tabela. Gosto de observar, são sempre tão bonitos, deixam nos corpos toda sua abertura ao mundo: a liberdade do relacionamento porém concentra-se apenas no sexo. O feitiche e a fantasia sexual, em sua plenitude errante, tornam-se os pilares desse matrimônio sem paredes. No corpo, com bastante esforço, buscam dissolver a angústia fundamental da vida a dois no suor do sexo nômade. Ah, como é bom a liberdade. Ouvi uma dizer, tão bonita a coitada. Liberdade pra ela é apenas transar com quem quiser.
Meu relacionamento também é aberto. Só que é aberto pra dentro.
Nada mais bonito do que um casal admirando-se
por Fabrício Carpinejar
Não vejo o amor sem a admiração. Admirar é desejar ser igual estando junto. Admirar-se. Admirar a gentileza do homem jurando por Deus. Admirar sua lealdade com os amigos. Admirar seu jeito esforçado de assumir as contas. Admirar seu cuidado treinado com os idosos, cedendo assentos e lugares nas frases. Admirar os princípios herdados dos pais. Admirar sua masculinidade em sobrecarregar no abraço. Admirar seu riso infantil, sua ingenuidade no tropeço. Admirar sua vivacidade em brincar. Admirar, admirar-se. Admirar a conversa que tem com o filho sobre quem cuida de Deus. Admirar seu temperamento sereno em noites de chuva. Admirar sua inquietude para sair com o sol. Admirar sua concentração numa música nova. Admirar inclusive quando ele amarra os sapatos, debruçado como a água nas escadas. Admirar seu nervosismo nas provas, nos concursos, nos exames do trabalho. Admirar sua letra com ânsias de terminar. Admirar sua falta de jeito em dançar, compensada pela alegria de estar contigo. Admirar seu modo de transar, sua fixação por poltronas. Admirar quando ele interdita o dia para arrumar aparelhos quebrados. Admirar o perfeccionismo que o impede de ser totalmente seu. Admirar quando ele dorme no meio do filme e finge que assistia. Admirar suas mentiras encabuladas. Admirar, admirar-se. Admirar sua disposição em ser mais velho no medo e ser mais novo no aniversário. Admirar suas meias sem par na gaveta, suas fotos esquecidas de datas, seus recados de telefone faltando números. Admirar sua capacidade em desmemoriar compromissos. Admirar ao circular o sabão nos seios como se fosse uma vidraça. Admirar seu talento em provocar amizades no trem ou na rua, pouco preocupado em se preservar. Admirar quando urra desaforos no estádio, logo ele tão civilizado, tão cordato na família. Admirar quando chora e não se enxerga lágrimas, um choro de soluços, recalcado. Admirar sua vocação para pegar a joaninha da gola e a pôr novamente na grama. Admirar como disfarça que perdeu um botão abrindo as mangas ou o zíper quebrado colocando a camisa para fora. Admirar suas palavras de amor, incompreensíveis, mas terrivelmente musicais, e dizer "não entendi", para escutar outra vez. Admirar suas calças apertadas, justas como minhas pernas nas dele na cama. Admirar sua respiração pesarosa com o luto. Admirar sua caça de baratas voadoras pela sala e perceber que ele tem mais pavor do que eu. Admirar quando gosta de um livro e me conta tudo como se eu nunca fosse ler. Admirar quando fica bêbado e se enrola no cobertor do meu casaco, desculpando-se por aquilo que ainda não fez. Admirar seus roubos nos tabuleiros de criança. Admirar sua dificuldade em se livrar dos pijamas gastos. Admirar sua barba por fazer em minhas coxas. Admirar quando me busca antes de pedir.
Pode-se admirar um homem sem amá-lo. Mas não amar um homem sem admirá-lo.
"a criatividade é o recurso mais fecundo com que o homem, desde sempre, procura derrotar os seus inimigos atávicos: a fome, o cansaço, a ignorância, o medo, a feiúra, a solidão, a dor e a morte. em cada esquina do planeta, em cada fase da sua evolução, a criatividade humana consegue atribuir uma forma ao caos, um significado às coisas."
domenico de masi
Ainda choro a morte do professor Tiago, pai de meus amigos Finéias e Miquéias. É uma saudade tão doída.
relíquia na escuta
quem gosta de música boa, sabe do que se trata!!!
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