Deu no Jacaré Banguela
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Meu destino é naufragar nas tuas águas de marés itinerantes como eu
Quero mesmo aguar-me em ti como um peixe morto de velhice ou devorado por cardumes nascituros preso ao último instante às armadilhas das cadeias ecofundas
E perecerei meio sem alma fundido em ferroespírito para me tornar parte de ti matéria transparente âmbar líquido na escuridão do fundo não na mera margem que comprime tua passagem ao mar
Publicado no livro Equinocio – Textuário do Meio do Mundo – Editora Paka-Tatu – Belém, 2004
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O toque era simples e pairava no ar como uma estrela sentindo o vento tocar.
Acalanto para uma mulher esquiva
Semeio o trigo das esperas
e o acalento com palavras grávidas
e orações insanas.
No santuário de tua carne
apascento meus sonhos de fúria.
Mas sei que tudo é meio e
não fim, em tua língua pagã.
A calcinha
Ela me conta sua aventura. Uma amizade antiga. Até que um dia, à beira da piscina, percebeu seus olhos de desejo. Ela, mulher experiente, achava que nada havia a ser descoberto.
- Engano. Diz, maliciosa. Sempre tem uma coisinha a aprender...
Achava-o um gato. Média idade. Não gostava de meninos. Era mais velho. Seu antigo professor. Dançava maravilhosamente. Bolero, brega. Era contra tudo que pensava e ele era mulherengo, mas não resistiu...
Esperou um mês pela semana do encontro.
-Eram três por noite, diz. As de minha vida. E mais que fosse, suspira...
Apaixonou-se. Guardou a calcinha preta, suja de ambos. Ele lhe dera de presente. Ela usou na última noite que dançaram. Mas rasgou as cartas que recebeu. Era casado. Resistiu. Nove meses depois, usou a calcinha. Uma única vez. Jogou fora. Não esqueceu. Mas soube que tinha sobrevivido.

- Desfibrilador, afastem-se!
- Um, dois, três!
- Afastem-se!
- Um, dois, três!
- Batimentos voltando, aumentando. Ok, estabilizado!
- Mas como assim Doutor?
- Depois de tudo, você me diz que não tenho sequelas.
- Exatamente, existe aptidão para um retorno triunfal a sua vida.
- É realmente impressioante, mas absolutamente factual!
- Vá em frente sem problemas! Minha prescrição é que você continue acessando o pauta_que_pariu para compreender coisas que muitas vezes passam desapercebidas ou que você não se dá conta de como são simples. Compareça nas próximas atualizações e se alimente da boa energia de todos que estarão presentes. Isso vai lhe fazer bem. Além disso, recomendo que viaje bastante e esteja presente em diversos lugares! Aguarde novas recomendações!

Porque há um alumbramento em toda terra, um desvio inexplicado de seu eixo, um destino que se remodela na oficina das divindades, ou diante dos peixes, o fio que as deusas que tecem a vida se retardam em cortar, um dialeto que se funda para o casal, uma aliança, um anel de esperanças e fogo, tatuando a posse. Porque há uma repentina onda de fertilidade e todos os úteros se tornam qualquer coisa de grávidos e meu tempo de esperar se faz tua colheita. Porque há algo que, de repente, me fecunda e cura meu país quando ela diz te amo. Só quando ela diz te amo.
a toa
deixa as gotas de água salgada
se misturarem com o suor do colo
Domingo, oito da noite. As chaves tilintam na fechadura. Ela está saindo de casa pela primeira vez. Só tem 19 anos. Ao lado da porta, a mochila. Adiante, a estrada aberta. Você pode gritar; ela não te escuta mais. Ela nem pediu sua permissão. Avisou que ia cair no asfalto, sair por aí, que ia ver o mar. Queria deixar a bolha casa/faculdade de jornalismo/balada. Os amigos moram em outros países, ela se sente sozinha. Sente-se sufocada e quer clicar outras paisagens. Quer experimentar. Percebe como ela cresceu? Percebe que ela já não é só sua? Você tem de deixá-la ir. Você já fez de tudo: você já tocou Billie Holiday, vocês já dançaram Duke Ellington e Ella Fitzgerald, já foram à praia juntos, tantas vezes... Você olha para ela e se enxerga: no fundo se orgulha, porque ela não olha para trás. Ela conhece os limites, só quer te testar. Ela deixa o copo de leite na pia antes de partir e sorri. Você se cala. A porta bate sem abraços.
Segunda-feira, sete da manhã. O vento entra pela janela do carro e bagunça seus cabelos, ao som de Rage Against the Machine — mesmo sentindo uma espécie de redenção — ela se envergonha de a trilha sonora não ser Pixinguinha ou um jazz: “O que ele iria pensar disso?”, pensa. Ela canta alto. Grita. Do lado de fora, um interminável paredão de coqueiros... Na baiana Santo André, até o vento desacelera. Seus pés já acariciam a areia. A manhã surge nublada. O sol aparece, a água do mar é quente. Ninguém por perto, as roupas caem na areia. “Eu não fiz nada de errado... Será que ele ainda está bravo comigo? Ele ia achar esse lugar um paraíso?” Ela pede um sorvete de graviola. O calor aumenta. Por ali, os bichos andam soltos: ela brinca com um cavalo, com uns patinhos... Você ainda se lembra de como ela gostava de correr nos parques? Escurece — ela busca a lua. Um italiano serve vinho e massas no jantar. Fala alto, filosofa, coloca Caetano pra girar na vitrola. Tudo muito charmoso. “Ele ia pirar nesse restaurante... E se eu ligasse? Mas e se ele não quiser falar comigo? Qual o nome desse disco mesmo?”
Nada errado
Terça-feira, dez da matina. Faz sol, a areia ainda está úmida da chuva da madrugada. Ela cavalga até a praia vizinha. “Ele me ensinou a galopar. Eu tinha medo...” A cama vazia. A casa silenciosa. E você pensa que fez tudo errado. Ela aluga um barquinho. O mar está calmo, ela toca a água com a ponta dos dedos e deixa as gotas de água salgada se misturarem com o suor do colo. Sim, ela não é mais sua. E está apaixonada. Louca, doente de amor — “Se pudesse, casava agora”, fala sozinha no quarto de hotel.
Quarta-feira, fim de tarde. Sob um céu cor de laranja, ela escuta Billie Holiday deitada na rede. É a música favorita dele. Ela não agüenta a saudade. “Mas não vou ligar.” Em casa, o telefone toca. Você sabe que é ela; mesmo assim, não atende. Ela pergunta por você. Está ótima. Adorando. O sol se vai... “Manda um beijo pro papai. Ele ainda está chateado?” Ela descalça os chinelos, procura roupas secas, busca uma garrafa de vinho. “Ele gosta de Porto... eu prefiro branco.” Ela vai voltar. Vai sair tantas e tantas vezes... mas vai voltar, sim. Veja como ela está linda. Como ela voltou feliz. Você não fez nada de errado. E, como afirma a Billie naquela canção, seu coração vai ser sempre do daddy.
:: texto publicado originalmente na seção tripgirl da revista TRIP
evite o desperdício, preserve a água!!!
Segundo o Conselho Mundial da Água, todos os dias morrem 25 mil pessoas no planeta por doenças relacionadas à má qualidade da água, um número maior do que o provocado pela guerra. A Terra possui 1.360 quatrilhões de toneladas de água, mas apenas 2,3% desse total é água doce líquida, que pode ser usada para o consumo humano. Por causa de sua localização, a América Latina é estratégica, tendo em vista que possui as principais reservas essenciais desse bem natural.
Não é nenhuma novidade para nós que a água do planeta está correndo um sério risco. Os diversos fatores, protagonistas para esse problema foram executados por quem mais deveria protegê-lo: O homem. Os desperdícios, a poluição dos rios e as agressões à camada de ozônio são penas alguns exemplos. Tais agressões foram de efeito tão negativo que para consertar levaria o dobro do tempo gasto no processo de destruição. A solução que nos resta é a que deveria ter sido seguida desde as primeiras civilizações, a preservação.
Alguns métodos que você mesmo pode fazer: não deixar a torneira aberta enquanto escovar os dentes ou lavar a louça; lavar calçadas e veículos com baldes de água; apertar o botão de descarga por, no máximo cinco segundos; reutilizar a água de sua casa, sempre que for possível; verifique se não há vazamentos em torneiras ou canos de sua casa; preste atenção se hidrômetro (medidor de água) está funcionando corretamente; fechar o chuveiro enquanto o corpo é ensaboado.
E lembre-se, a preservação da água também é questão de bom senso.
carolina, eu empresto meu violão pra você tocar...
Texturas
O som segue rodando no laser do CD. Na sala a penumbra da luz que ilumuna através do abajur as texturas na parede que envolvem a cortina. O controle remoto na mão aciona a mesma música assim que ela termina. Ou então aquela fita K-7 achada no fundo da gaveta do armário. No chão vinis e revistas lembram a bagunça que foi deixada pra trás. No chão, apenas os pés descalços tocam a madeira. No vidro da janela os pingos da chuva escorrem até alcançar a calçada. O cão se deita próximo ao pé do sofá e apoia a cabeça entre as patas da frente. Os rabiscos da música com letra e cifra pousam sobre o violão. A viagem é longa, alguns quilômetros. Queria sentir o cheiro por perto e os suspiros do seu sorriso ao pé do ouvido nos olhos da cor do mar. A vida corre lá fora e por dentro a saudade que nos separa.
Aí vc lê:
"Questão de necessidade: Li teu blog e descobri que preciso tentar um certo furto de personalidade por meio de osmose virtual, se tu não te importa. Mas acho que tu compreende essas necessidades vis dos seres humanos, fato que me deixa muito grata! A existência de inteligência real e genuína me traz uma paz de espírito indescritível... Muito obrigada!"
E vc pergunta: "o que fizemos demais?!?"
porque ela vai estar lá / querendo proteção
"Pra quem você tem olhos azuis
E com as manhãs remoça
E à noite, pra quem
Você é uma luz
Debaixo da porta?
No sonho de quem
Você vai e vem
Com os cabelos
Que você solta?
Que horas, me diga que horas, me diga
Que horas você volta?"
Chico Buarque
Desligue a tv e vá ler um livro!!!
E aproveita pra saber um pouco mais da história cultural do seu país...
4x Brasil - Itinerários Da Cultura Brasileira
A obra "4X Brasil - Itinerários da cultura brasileira" reúne artigos de 16 colaboradores, todos intelectuais e escritores de prestígio, que discorrem livremente sobre o tema: como interpretar a trajetória cultural brasileira nas últimas quatro décadas? Trata-se de uma ampla análise das transformações na cultura brasileira nos anos 60, 70, 80 e 90. As metamorfoses do pensamento, das artes, do comportamento, que forjaram o Brasil contemporâneo. Alguns autores optaram por uma abordagem mais acadêmica, ou formal; outros produziram ensaios interpretativos. Pela sua própria experiência de agentes e espectadores desta trajetória de quatro décadas, alguns textos estão saborosamente impregnados de um timbre testemunhal. Os artigos contemplam a música, o cinema, o teatro, as artes plásticas, a arquitetura e a historiografia. Arte e literatura também aparecem por aqui, sob a forma de um conto. Vida, comportamento, cultura, arte e reflexão entrelaçadas.
Em silêncio, ficou a contemplar o mar, as ondas se quebrando sem cessar. E me perguntou: "O que é que o mar faz quando vai dormir?". Era-lhe incompreensível a eternidade do mar. Também me espanto e me pergunto, sem resposta: "Há quanto tempo o mar se quebra alisando a areia?". O mar, a praia, as conchas, o céu, os peixes invisíveis nas profundezas, as gaivotas em vôo me falam da eternidade. Senti-me retornado ao início do mundo (...)"
Rubem Alves - da crônica "Por que não me mudo para Bahia".
Preciso de uma prece que me liberte de ser completo...
E me liberte dos dentes perfeitos do sorriso na TV. Me liberte da boa forma, spinning, pilates, capoeira, lambaeróbica, caratê, ioga - e iôga. Me liberte dos traços simétricos e do retoque na foto da página central. Me liberte do casal de ocasião nas capas das revistas. Aliás, que me liberte de modelos e jogadores de futebol. Que me liberte das viúvas de Sex and the City e sua compulsão por arrumar um homem - para depois enfileirar seus defeitos e reclamar, reclamar, como eu faço agora. Que me liberte do amor....
... Me liberte da minha sina redundante. Me liberte do lápis que escreve as mesmas palavras. Que me liberte da obrigação de ser coerente. Uma prece que me liberte, não do que me afasta de mim, mas que me liberte de mim mesmo, simplesmente. E me liberte, acima de tudo, da minha própria opinião sobre o que acabei de escrever.
O chuveiro puxa energia demais e desarma o disjuntor velho - a instalação elétrica está tão prejudicada quanto as minhas reflexões. Antes de o banho acabar, a luz apaga e a água esfria. Sento no chão do banheiro, no escuro, sem roupa. Ainda muito longe de ser livre.
Trechos do texto de João Paulo Cuenca, autor do livro Corpo Presente
Corpo presente é o mergulho radical de um homem em suas obsessões. Seu narrador atravessa ruas, noites e mulheres em busca de um amor perdido ou impossível, uma Carmen que não é de ópera ou ficção, mas da Copacabana suja e sedutora, cenário claustrofóbico deste primeiro romance de João Paulo Cuenca.
Tragado pelas noites, ofuscado pelo sol, o protagonista vive um presente contínuo e tenso em busca de sentimentos para sempre perdidos num mundo cínico demais, violento demais, sexualizado demais. Idealista a seu modo, busca a pureza lambuzando-se com as precariedades que a vida lhe oferece.
Tal como os números primos que encimam os fragmentos do texto, os personagens de Corpo presente são divisíveis por eles mesmos e por um. O que João Paulo Cuenca propõe é um jogo de identidades sem vencedores ou perdedores, mas com uma regra rígida, a da escrita como forma de enfrentar a vida.
aberto!
Então ouço esse tal de relacionamento aberto. Vejo a trajetória previsível desses personagens tão caretas em sua pós-modernidade frenética. Aparentam uma certa felicidade - logo corrijo-me, vejo que esse sorriso carrega um desejo de estar feliz, uma vontade de convencer o lado de fora primeiro, na ilusão do lado interno acabar felicitando-se por tabela. Gosto de observar, são sempre tão bonitos, deixam nos corpos toda sua abertura ao mundo: a liberdade do relacionamento porém concentra-se apenas no sexo. O feitiche e a fantasia sexual, em sua plenitude errante, tornam-se os pilares desse matrimônio sem paredes. No corpo, com bastante esforço, buscam dissolver a angústia fundamental da vida a dois no suor do sexo nômade. Ah, como é bom a liberdade. Ouvi uma dizer, tão bonita a coitada. Liberdade pra ela é apenas transar com quem quiser.
Meu relacionamento também é aberto. Só que é aberto pra dentro.
Nada mais bonito do que um casal admirando-se
por Fabrício Carpinejar
Não vejo o amor sem a admiração. Admirar é desejar ser igual estando junto. Admirar-se. Admirar a gentileza do homem jurando por Deus. Admirar sua lealdade com os amigos. Admirar seu jeito esforçado de assumir as contas. Admirar seu cuidado treinado com os idosos, cedendo assentos e lugares nas frases. Admirar os princípios herdados dos pais. Admirar sua masculinidade em sobrecarregar no abraço. Admirar seu riso infantil, sua ingenuidade no tropeço. Admirar sua vivacidade em brincar. Admirar, admirar-se. Admirar a conversa que tem com o filho sobre quem cuida de Deus. Admirar seu temperamento sereno em noites de chuva. Admirar sua inquietude para sair com o sol. Admirar sua concentração numa música nova. Admirar inclusive quando ele amarra os sapatos, debruçado como a água nas escadas. Admirar seu nervosismo nas provas, nos concursos, nos exames do trabalho. Admirar sua letra com ânsias de terminar. Admirar sua falta de jeito em dançar, compensada pela alegria de estar contigo. Admirar seu modo de transar, sua fixação por poltronas. Admirar quando ele interdita o dia para arrumar aparelhos quebrados. Admirar o perfeccionismo que o impede de ser totalmente seu. Admirar quando ele dorme no meio do filme e finge que assistia. Admirar suas mentiras encabuladas. Admirar, admirar-se. Admirar sua disposição em ser mais velho no medo e ser mais novo no aniversário. Admirar suas meias sem par na gaveta, suas fotos esquecidas de datas, seus recados de telefone faltando números. Admirar sua capacidade em desmemoriar compromissos. Admirar ao circular o sabão nos seios como se fosse uma vidraça. Admirar seu talento em provocar amizades no trem ou na rua, pouco preocupado em se preservar. Admirar quando urra desaforos no estádio, logo ele tão civilizado, tão cordato na família. Admirar quando chora e não se enxerga lágrimas, um choro de soluços, recalcado. Admirar sua vocação para pegar a joaninha da gola e a pôr novamente na grama. Admirar como disfarça que perdeu um botão abrindo as mangas ou o zíper quebrado colocando a camisa para fora. Admirar suas palavras de amor, incompreensíveis, mas terrivelmente musicais, e dizer "não entendi", para escutar outra vez. Admirar suas calças apertadas, justas como minhas pernas nas dele na cama. Admirar sua respiração pesarosa com o luto. Admirar sua caça de baratas voadoras pela sala e perceber que ele tem mais pavor do que eu. Admirar quando gosta de um livro e me conta tudo como se eu nunca fosse ler. Admirar quando fica bêbado e se enrola no cobertor do meu casaco, desculpando-se por aquilo que ainda não fez. Admirar seus roubos nos tabuleiros de criança. Admirar sua dificuldade em se livrar dos pijamas gastos. Admirar sua barba por fazer em minhas coxas. Admirar quando me busca antes de pedir.
Pode-se admirar um homem sem amá-lo. Mas não amar um homem sem admirá-lo.
"a criatividade é o recurso mais fecundo com que o homem, desde sempre, procura derrotar os seus inimigos atávicos: a fome, o cansaço, a ignorância, o medo, a feiúra, a solidão, a dor e a morte. em cada esquina do planeta, em cada fase da sua evolução, a criatividade humana consegue atribuir uma forma ao caos, um significado às coisas."
domenico de masi
Ainda choro a morte do professor Tiago, pai de meus amigos Finéias e Miquéias. É uma saudade tão doída.